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Como diretor de fotografia, sempre tive muito interesse em estudar, analisar e também escrever sobre os processos, estratégias, técnicas e mecanismos de concepção e produção de imagens estáticas e em movimento.

E como estudioso do cinema documentário (faço pós-graduação em cinema na USP) tenho especial interesse pela articulação de imagens à narrativa cinematográfica em obras documentais, principalmente aquelas que apresentam caráter ensaístico.
Através deste blog, publicarei alguns textos próprios a respeito desses temas.


Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán

Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán Numa sessão exibida na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, o filme Nostalgia da Luz surpreendeu muitos presentes na sala quase cheia, não por acaso. Comigo não foi diferente. Antes de assistir ao filme, recolhia poucas informações acerca do mesmo e do seu diretor. Minha irmã, Mariana, estudiosa do cinema latino, já havia comentado pouco sobre o Patricio Guzmán, por ser ele também o diretor do filme A Batalha do Chile; importante ícone da história do cinema chileno. Também tinha ouvido daqueles que haviam assistido ao filme por tê-lo baixado da web, que as imagens de Nostalgia da Luz eram belíssimas. Parava por aí. Assim que a sessão acabou tive a certeza de ter encontrado mais um dos poucos filmes – desses que chamamos documentário – que considero exemplar, e explico o motivo. Guzmán nos leva para um passeio cósmico por dois temas principais: as mulheres que buscam em pleno deserto do Atacama os restos mortais de seu familiares que desapareceram durante a ditadura militar no Chile e os astrônomos que, no mesmo deserto exploram o cosmos através de intrumentos e programas dos mais avançados no mundo. Conhecendo os temas e a sinopse do filme, me perguntava: como ele irá tratar disso? Já nos primeiros planos, vejo que a principal motivação de sua empreitada é um duplo (ou triplo?) resgate do passado. Suas próprias memórias de quando criança, no tempo de um país ainda livre da ditadura, somadas à procura incessante de uma resolução do conflito político-social, levam-nos ao espaço sideral. É então que vemos uma busca, também incessante, pela imagem que nos origina. As mulheres buscam os ossos, imagens táteis no solo do deserto. Os astrônomos buscam as estrelas, as luzes que nos explicam, através das imagens dos radiotelescópios. E Guzmán busca sua imagem, reprodutível na poeira dos objetos, nas formas do deserto, no movimento das estrelas e dos telescópios, alguma explicação para os fatos do tempo, do big-bang ao estouro dos projéteis da ditadura chilena. Embora o conteúdo se assemelhe metafísico, construído pelo documentarista numa profunda relação discursiva entre os três temas, a imagem que se pode fazer disso não paira somente num plano da imaginação. Há uma busca por uma imagem física (concreta) que é pretendida pelos três – o familiar, o astrônomo e o documentarista – uma restauração do passado, através dos ossos, das estrelas, das imagens cinematográficas. Talvez nenhum deles tenha chegado na imagem procurada, mas há aquela que construímos na triangulação entre o objeto do filme, o realizador e nós espectadores, talvez esteja aí uma possibilidade. A imagem de um tempo futuro que construímos ao nos identificarmos com aquilo que nos é próprio (as razões de estarmos e sermos), a partir da relação que estabelecemos com o que é vivo/morto no filme. Ao longo da exibição, temos contato com alguns planos, muito fortes, de restos mortais das vítimas da ditadura. Não são planos confortáveis, nos colocam em contato direto àquela memória violenta. As mulheres do filme buscam sepultar seus mortos, apenas, enquanto são observadas pela sepultura que é o próprio espaço, celeiro de corpos celestes, os quais necessariamente, estão em outro tempo – o que observamos é o passado da existência desses corpos. O que vemos, então, são imagens de duas grandes sepulturas: o espaço, com seus vestígios do grande princípio de tudo e o deserto, como sepultura dos desaparecidos. A idéia de sepultura traz consigo uma idéia de perenidade daquilo que já não existe mais. Provavelmente, Guzmán tocou a eternidade nesse filme.


 

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